PLANO-SEQUÊNCIA 1

 

Eixo Oeste, Curitiba


Seria mais fácil criar uma cidade a partir do zero, como foi Brasília. Contudo, no trabalho de consultoria urbanística, identificando problemas e apresentando possibilidades às cidades existentes, o maior desafio está em conseguir aplicar conceitos contemporâneos com o menor custo de intervenção. Cada cidade tem a sua singularidade. Historicamente os diversos aspectos, como região geográfica; fundamento de origem; cultura popular; e vocação econômica, guiaram o seu desenvolvimento. Sendo assim, o trabalho do Urbanista, no planejamento urbano, muitas vezes transita mais em adotar alternativas e não em idealizar soluções. Em outras palavras, não é o caso de derrubar a árvore e plantá-la de novo, mas de tutorar e podar o seu crescimento.

Num breve resumo, exponho preceitos do Plano-Sequência, o P-S. Aliás, a nomenclatura é lógica. Assim como na sétima arte, plano-sequência é uma tomada de ação contínua e sincrônica entre vários agentes.

Primeiramente devemos identificar as potencialidades econômicas do município que nortearão a sua organização. Lembrando que, mesmo pouco ou não praticadas, algumas dessas poderão ser desenvolvidas. A cidade pode ter uma ou mais vocações para explorar. Poderá ser majoritariamente industrial, como também poderá ter amplo comércio e serviços. Sobre esse último, podemos salientar eixos de grande importância, como o médico e hospitalar; o científico e universitário; o de turismo e exposições; o de lazer e espetáculos; o de inovação e investimentos. Entre outros, são eixos com atividades que fixam residentes, e trazem tanto visitantes quanto servidores pendulares. A estrutura da cidade deverá ter o propósito de impulsionar a sua vocação.

Analisando todo o território do município, começamos examinando a demarcação e os acessos para usos muito específicos - caso existam - como as zonas industrial, rural, e de preservação, além da cidade consolidada. Aqui firmamos o modelo espacial, marcando as vias de trânsito rápido e as arteriais que conectam essas regiões, e dependendo do impacto nos deslocamentos e da sua operação, apontamos alguns projetos de grande porte. Não confundamos essa setorização de escala macro com a desejada miscigenação das atividades na escala de um plano de pormenor. Começamos a entender a ideia de uma sucessão do macro para o micro, e em outros aspectos, ao inverso, do menor ao maior. Essa é a ideia que apresento de um Plano-Sequência.

Assim como uma cidade pequena cresce, a compatibilização do porte deveria ser regrada de forma escalonada. Devemos revisar os limites culturais dos bairros ou dos distritos (mais de um bairro), pois serão importantes para a identificação da morfologia das edificações e a classificação das vias. Voltando à escala macro, imaginemos um gabarito cônico, independente dos bairros, onde o centro, com maiores alturas no cruzamento de vias arteriais e coletoras, seria então mais densificado demograficamente. Diferentemente ao Desenvolvimento Urbano Orientado ao Transporte Sustentável (DOTS), as maiores alturas, no P-S, seriam desenvolvidas muito além da borda das vias arteriais, mas num escalonamento de alguns quarteirões, como as transições das vias coletoras às locais. Com relação ao abastecimento dos serviços essenciais sem a necessidade de carro a toda a população do cone, em contraponto ao Crono-Urbanismo - “Cidade de 15 minutos” -, os serviços seriam espalhados pelo território com portes proporcionais, e não centralizado junto a prédios públicos como escolas. Por exemplo, um binário de vias coletoras próximas a arterial acomodaria supermercados de até 2.500 m² e galerias comerciais, enquanto as zonas predominantemente residenciais, tipo “Cidades Jardins”, com baixa altura e formada por vias locais, teriam mini-mercados de até 200 m² e lojas diminutas. Todas as áreas com miscigenação de atividades, inclusive com recuo frontal nulo ou reduzido. Para a difusão do comércio local, caberia ao poder público incentivá-lo através de benefícios tributários. Contra uma possível gentrificação, observada no DOTS em regiões mais próximas ao transporte, o governo deveria controlar os padrões dos imóveis, tipificando os perfis das unidades autônomas e das comerciais permitidas à construção, objetivando ampla variação de valor imobiliário. Uma alternativa à renovação total sobre o que Jane Jacobs, em seu livro “A Morte e a Vida das Grandes Cidades Estadunidenses”, defendia de manter edificações velhas, portanto mais baratas, junto a prédios novos para proporcionar diferentes preços de mercado. Isso é Urboplanado!


Exemplo de um plano-sequência cinematográfico





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